A CRUCIFICAÇÃO
Ao chegar ao local da execução, a lei judaica determinava que uma dose de vinho misturado a mirra (fel) fosse oferecida ao réu. A bebida tinha efeito levemente anestésico. Jesus chegou a molhar a boca no líquido, mas o gosto parecia ser tão ruim que Ele se recusou a tomar.
Por volta de 9 horas da manhã, isto é, à hora terceira, os preparativos para a crucificação se iniciam. Os carrascos, mais uma vez, têm a incumbência de despir Cristo, porém sua túnica está grudada às feridas. Para tirá-la, é necessário puxar violentamente, e isso lhe provoca dores intensas, já que chagas levemente cicatrizadas são novamente abertas. Vestido apenas com um manto, o Mestre é jogado ao chão, a terra penetra em seus ferimentos e o martírio da crucificação atinge o seu ápice quando os pregos lhe atravessam os pulsos e pés, transpassando nervos, tendões e ossos. Certamente, esse foi o momento de pior dor.
Segundo a Enciclopédia Bíblica Wycliffe, “restos arqueológicos de um corpo crucificado na época de Cristo e encontrado em um ossuário perto de Jerusalém indicam que os pregos utilizados nessas execuções eram longos, quadrados e tinham entre 13 e 18 centímetros”. Outro fato curioso é que os pregos não eram transpassados pelas palmas das mãos, mas através dos pulsos, porque os ligamentos e ossos desta região são mais fortes e podem segurar mais peso do que as palmas.
Os pés, geralmente, eram pregados um sobre o outro, deixando as pernas levemente recolhidas a fim de facilitar o apoio e a fixação. Logo depois, uma placa trazia o nome do réu e um letreiro em três idiomas – hebraico, latim e grego –, indicando o crime praticado pelo executado. Na de Jesus, pregada na parte superior do patibulum, estava escrito: Jesus de Nazaré, Rei dos judeus.
Segundo o estudo científico “A Morte Física de Jesus”, “embora o açoitamento tenha resultado em perda considerável de sangue, a crucificação em si era um procedimento relativamente sem sangramento, uma vez que nenhuma grande artéria era comumente atingida”. Os carrascos sabiam o local anatomicamente apropriado para deixar o indivíduo o maior tempo possível exposto ao sofrimento. A crucificação podia durar entre 3 horas e 4 dias. No entanto, quando havia interesse em antecipar a morte – como foi o caso dos ladrões que ainda estavam vivos quando Jesus morrera – quebravam-se as pernas do réu e, sem ter onde se apoiar, o indivíduo morria por asfixia.
Edwards esclarece ainda que o maior efeito patofisiológico da crucificação é a interferência na respiração, particularmente a exalação, já que o ar entra, mas sai com muita dificuldade, como um asmático nas piores crises. “O peso do corpo sobre os braços estendidos e ombros tende a pressionar os músculos intercostais num estado de inalação, impedindo a exalação. Uma exalação adequada exigiria um ato de levantamento do corpo, que poderia ser conseguido ao apoiar-se sobre o tarso dos pés. No entanto, este procedimento resulta em dores como se fossem queimaduras por todo o corpo”.
PÁSCOA - ANTES E DEPOIS DE CRISTO
Era costume entre os israelitas. No primeiro domingo após a primeira lua cheia da primavera, isto é, na noite do dia 14 de Nissan – o primeiro mês do calendário judaico, uma data variável no calendário cristão, entre os dias 22 de março e 25 de abril – o povo judeu comemorava a Pessach. A festa existia desde o período pré-mosaico e celebrava a entrada da primavera no hemisfério norte. Porém, com o advento da libertação do povo judeu após 430 anos de escravidão no Egito, passou a ter novo significado. Era dia de unir a família para festejar a liberdade. Agradeciam a Deus oferecendo sacrifícios e pediam a Ele perdão pelos pecados, assim como proteção sobre o lar e o rebanho.
Desde que o povo judeu, guiado por Moisés e Arão, atravessou o Mar Vermelho em direção à Terra Prometida em 1.060 a.C., em todas as residências dos israelitas, o ritual denominado Pessach – Páscoa, ou literalmente “passagem, travessia” – era reproduzido conforme as últimas ordenanças de Deus ao povo, na noite em que houve a grande libertação. Imolava-se um cordeiro, retirava-se o sangue do animal e então ungia-se os umbrais e vergas das portas, em alusão à proteção contra o anjo da morte que matou os primogênitos das famílias egípcias, a última e única praga que tocou emocionalmente Faraó, fazendo-o autorizar a partida dos escravos rumo à liberdade.
A festa era tão ou mais popular que o Natal dos dias atuais. O banquete servido ao som de música, alaridos e danças tinha mesa farta e muita carne assada.
Para o cristianismo, a morte de Jesus colocou fim à imolação de cordeiros, pois os pecados passaram a ser perdoados através do Espírito Santo, já que Jesus levou sobre si os pecados de todos. Além disso, o marco referencial entre a lei e a graça se estabeleceu.
A MORTE DE JESUS
De acordo com alguns especialistas, a causa da morte de Jesus pode ter sido multifatorial. Desidratação, arritmia por estresse induzido, perda sanguínea e enfarte estão entre os diagnósticos mais especulados. Outros, como o pesquisador Benjamin Brenner, do Centro Médico Rambam de Israel, cogitam ainda a hipótese de ter ocorrido uma embolia pulmonar.
No entanto, há quem conteste essa possibilidade. Dr. William Edward diz que é praticamente improvável que uma trombose tenha se formado num curto espaço de tempo. Para ele, “as duas causas mais lógicas são choque hipovolêmico [que tem como causa determinante a perda de sangue, plasma ou líquidos extracelulares] e asfixia por exaustão”.
Foram seis horas de sofrimento na cruz. Durante esse tempo, esforçando-se ao extremo, Jesus pronunciou apenas sete frases. A primeira delas foi dirigida aos seus executores, enquanto lançavam sortes sobre sua única vestimenta. E disse: “Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem”. A segunda, ao ladrão da cruz que, arrependido, pedia ao Mestre para lembrar-se dele quando entrasse no Reino. A terceira, a seu irmão João – ainda adolescente – que, juntamente com sua mãe, chorava à beira da cruz. “Eis aí a tua mãe, eis aí o teu filho”, disse.
A quarta, pronunciou quando parecia não mais suportar a dor: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?”, seguido de “Tenho sede”, quando lhe deram uma esponja umedecida em um pouco de vinho azedo, resto da bebida dos soldados. Finalmente, às 3 horas da tarde de sexta-feira, isto é, à hora nona, Jesus brada em alta voz dizendo: “Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito”. E então, morre.
A pedido dos soldados, Pôncio Pilatos autorizou a crucifratura dos executados, isto é, o ato de quebrar-lhes as pernas a fim de que não pudessem exercer força para se erguerem e então respirarem. A pressa devia-se ao fato de que o pôr do sol se aproximava e logo se iniciariam as celebrações de Páscoa, período em que as execuções não eram permitidas. Mas, quando a ordem fora dada, Jesus já estava morto, por isso, somente os ladrões tiveram suas pernas fraturadas.
Para certificar-se de que Jesus realmente estava morto, um soldado chamado Longínquos desferiu um golpe de lança sobre o lado direito de seu corpo, transpassando possivelmente um dos pulmões e o coração. João afirmou que “sangue e água jorraram do ferimento”. Para a medicina moderna, a acumulação de fluidos que envolvem o coração – isto é, o pericárdio – e a membrana que cerca os pulmões, denominada pleura, pode ter sido a causa do estranho fenômeno.
Depois disso, José de Arimatéia, que também era seguidor de Jesus, pediu autorização a Pilatos para levar o corpo do Mestre. Então, juntamente com Nicodemos, banharam-nO com mirra e aloés e O sepultaram. Ao terceiro dia, Ele ressuscitou.
Não há sofrimento com tamanha repercussão que tenha sido mais aterrorizante do que as últimas horas de Cristo. Além das dores físicas e injustiças políticas, o desprezo, a humilhação e a rejeição contribuíram para que sua tristeza fosse ainda maior. Felizmente, a crucificação e a morte de Jesus não estabeleceram o fim de um grande ministério, como queriam os fariseus. Na realidade, involuntariamente, eles contribuíram para que o Messias fosse eternamente coroado, cumprindo o que havia sido predito nas Escrituras. Hoje, povos, tribos e nações O reverenciam.
A Páscoa obteve um novo significado. Para o perdão dos pecados, o sacrifício de animais e o derramamento de sangue foram abolidos. Cristo passou a simbolizar o Cordeiro. O madeiro, o altar; e o sangue vertido na cruz, a purificação dos pecados. Este marco divisor entre duas páscoas, a libertação do Egito e o perdão dos pecados pela graça existirá para todo o sempre, até que a promessa de Jesus, feita aos discípulos após a ressurreição, se cumpra. “Irei vos preparar lugar, para que onde Eu estiver, estejais vós também”.
pastor charleston scarparo
quarta-feira, 12 de agosto de 2009
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